quarta-feira, 16 de julho de 2008

Não à sabotagem! Não ao Titanic! Sim a palhaçar no Oásis!

Estava eu a confrontar-me com a minha incapacidade de dar corpo a um texto que fizesse sentido a partir de pensamentos avulsos, que por muito que sejam meus nem a mim me fazia grande sentido porque estaria a tentar dar-lhes sentido, se o mais certo é não terem significado nenhum, por muito que quando me atravessem o espírito, atormentem a alma ou aqueçam o coração me pareçam o mais óbvio e natural de pensar, ainda para mais colocados avulsamente em texto forçado para o efeito, perderiam decerto toda e qualquer possibilidade de se parecerem com qualquer coisa que qualquer pessoa dita normal, ou mesmo especial, pudesse achar algum sentido em sentir. Estava eu portanto nesta minha dialéctica entre o querer afirmar o que sinto, o risível da forma como o penso e a falta de arte ou total incapacidade de arranjar maneira de tornar perceptível a terceiros aquilo que nem eu próprio entendo, excepto nos momentos em que penso tais coisas, quando me lembrei que mais valia não arriscar a proeza de não ser entendido, ser mal interpretado, passar por mal intencionado, tudo isto entre gargalhadas de desdém, olhares de reprovação e recomendações de ajuda psiquiátrica, e antes sim, trazer à luz da Lua um texto de apresentação de um livro, que confesso não ter lido e não fazer ideia se o conteúdo do dito coincide ou faz justiça à forma como é apresentado – vou pôr um ponto final nesta frase, embora continue na seguinte a abordar o mesmo tema, só para que o Saramago não me processe por plágio ortográfico. O livro que é apresentado intitula-se “Ideias para sabotar a nossa Vida” e pode ser que seja mais que apenas mais um daqueles livrinhos, agora muito em moda, de auto-ajuda e que resolvem tudo, tipo homem da Macroconta (já falecido). Gostei das ideias chave do texto de apresentação (agradeço a quem possa ter lido ou venha a ler que me comente algo mais sobre o assunto), pareceu-me uma abordagem séria sobre uma temática que confesso trazer na ordem do dia, e o mais importante de tudo, aquilo que realmente me convenceu a trazê-lo aqui, é que o que tinha previsto para ocupar algumas linhas desta trova, não fazia rigorosamente sentido nenhum. Espero que no fim de contas, retirem do que vão ler mais do que apenas “o mal menor”, que é no fundo aquilo que é.

Começa a transcrição:

Ideias para sabotar a nossa vida

Jacques Arènes (Psicanalista) e Nathalie Sarthou-Lajus (Teóloga), são os autores dum livro muito interessante e que da que pensar.

Da síntese deste livro resultam três pontos essenciais que o psicanalista considera serem três “mecanismos assassinos” que podem dar cabo da nossa vida, literalmente falando.

“As nossa estratégias de sabotagem” é o título da síntese em questão, onde o especialista francês explica os mecanismos e dá pistas para os desactivar. Jacques Arènes começa por advertir contra o perigo das expectativas, dizendo que muitas pessoas afundam na tristeza ou no desânimo, justamente por terem expectativas demasiado altas ou distorcidas da realidade. È muito importante ajustar as nossas expectativas, portanto.

Quanto aos “mecanismos assassinos” são os seguintes: a ruminação constante de ideias e sentimentos; viver permanentemente à defesa e sentir-se sempre responsável por tudo e por todos.
A boa noticia é que a esmagadora maioria das pessoas tem activado em si apenas um ou dois destes mecanismos, mas raramente os três. Antes assim.

Começando pela ruminação constante, muitos dos que passam a vida a ruminar as suas mágoas acham que vivem no “lado errado” da vida. Sentem-se menos amados e consideram que têm menos oportunidades que os outros. Nem sempre é verdade mas, mesmo que seja, a energia que consomem nesta ruminação negativa é um desperdício fatal. Ainda que seja infinitamente mais fácil teorizar do que concretizar na prática, é possível tomar consciência desta atitude e fazer tudo para tentar contrariá-la.
“Quando os meus pacientes insistem naquilo que não têm ou não tiveram nunca, como o amor dos pais, por exemplo, digo-lhes que não podem “refabricar” a sua infância e fazê-la mais feliz.
Por outro lado, sublinho que aquilo que eles viveram, mais ninguém viveu e é essa singularidade que os constitui como pessoas e lhes dá mais profundidade como seres humanos”, esclarece Jacques Arènes. A ideia é ajudar estas pessoas a mudar o olhar sobre si mesmas, de forma a terem uma percepção mais clara sobre a margem de liberdade que têm para lidar com a falta de amor ou a adversidade . E é esta margem que nos permite cultivar uma atitude mais negativa ou mais positiva.

Quanto aos que vivem permanentemente à defesa, o psicanalista francês é muito eloquente : “Controlam os acontecimentos para se protegerem e nunca arriscam nada do ponto de vista afectivo. São pessoas que se constróem muito sozinhas, estabelecem metas demasiado ambiciosas e, na relação a dois, têm níveis de exigência desmedidos. Nunca ninguém realmente lhes serve, porque estão reféns dos seus próprios medos e ficam facilmente prisioneiros de ideais inalcançáveis”. O autor sugere que se baixem as defesas, identifiquem os seus medos e aceitem correr riscos pois, caso contrário, arriscam passar ao lado da própria vida. “É importante dizer a estas pessoas que a vida não volta a servir os mesmos pratos. Muitas das oportunidades que se perdem no momento ficam perdidas para sempre.”

Finalmente, os que se sentem responsáveis por tudo. Estes são os que acham que são os autores da própria vida e que chamam a si a responsabilidade por todos os fracassos. Os seus, os dos seus filhos, os dos seus pares e até, os dos seus amigos. Esta hiper-responsabilização pode traduzir-se de duas formas: a angústia permanente ou a vitimização constante. Jacques Arènes diz que ajuda muito pedir a opinião dos outros e ganhar distancia crítica em relação aos acontecimentos e às pessoas que lhes estão próximas. Só assim é possível escapar a esta espiral perversa de auto-acusação ou justificação.

Enfim, resumindo a ciência deste especialista, vale a pena estar atento aos nossos “mecanismos assassinos” e neutralizar todas as nossa estratégias de sabotagem da vida e da Alegria.

Fim de transcrição.

Que dizem? Valeu a pena a minha prosápia introdutória? Vontadinha de ler o livro? Há carapuças enfiadas ou perguntas feitas no intimo? Pois não sei. Cada um é como cada qual e mais uma quantidade de provérbios que agora não me ocorrem. Eu gostei do texto, gostei de o partilhar, e acho que é decerto mais útil do que meia dúzia de alarvidades lamechas, por muito sentidas que fossem. Como diz a minha amiga Cecília: “sem vontade de ter vontade não há vontade”, e eu hoje forcei a vontade de “palhaçar”!

E termino a trova, imbuído de disposição “em alta”, trazendo outra pérola a esta face luminosa da Lua. Algo que há uns meses um amigo me escreveu em tom de alerta, que eu inicialmente refutei e depois entranhei. E só mesmo hoje para o partilhar. No meio de tanta animação, auto-ajuda e fuga a tudo o que me atormenta sem sentido.

“Nada se compara com aquilo que te espera.
Vais-te sentir mais só que os passageiros do Titanic.
Vais sentir mais frio que os mendigos russos.
Vais-te sentir mais triste que uma mãe que perdeu os filhos.
Ainda assim aguentarás. Porque é urgente aguentar. Atravessar o deserto para valorizar a água do oásis.”

A carta há-de chegar a Garcia. E eu descansarei no teu oásis lunar. Fiquem bem, à luz da Lua.

1 comentário:

Rogério Charraz disse...

Trovador, não sei se está aí o cardápio todo, mas sem dúvida que é um menu bem recheado...