domingo, 13 de julho de 2008

Amor sem Tempo

Dói cada vez mais. A cada dia que passa, embora esse passar encurte o caminho que me recolocará nos teus braços, sinto mais fundo e forte a tua ausência em mim, a minha ausência em ti. Tens em mim uma confiança inabalável, mas começas a questionar os porquês. Eu tenho uma esperança infinita em nós, mas sinto-nos cada vez mais longe.
A tristeza da distância; o confronto com o desconhecido; a falta da companhia e do carinho; as vozes embargadas pela saudade e pelo cansaço; a procura e a espera constantes por notícias, mesmo quando sabemos não ter muito mais para contar ou ouvir; a ânsia de que o tempo avance rápido e sistematicamente se mostra parado; o tão grande querer e não saber nem como, nem quando, nem se se é capaz; a falta do olhar cúmplice, do sorriso expontâneo, do ombro forte e disponível, do corpo quente a velar o sono; as questões e dúvidas próprias e legítimas de quem sempre primou pelo uso da razão e agora se confronta com razões que a própria razão descohece ou não alcança, a líbido perdida ou atrofiada. O passar do tempo tudo isto aumenta, tristemente não traz respostas, confunde.
O que temos e que tanto lutámos para construir não pode e não vai perder-se em tempo algum. Vai haver tempo para que em tempo o possamos viver em espaço comum e consciência absoluta. Esta é a minha convicção, o meu grande desejo. Que faz com que suporte todos os tempos.
Que a tua confiança inabalável e a minha esperança infinita triunfem um dia sobre todas as farpas que o maldito tempo que não passa insiste em cravar.

Confesso que nunca li nada de Inês Pedrosa, desconheço a sua obra e percurso. Não tenho por isso qualquer juizo de valor criado sobre si e a sua escrita. Por mero acaso do destino (potenciado pelo meu excesso de tempo vazio de significado) choquei de frente com a crónica da escritora, que transcrevo abaixo. De uma outra forma, mais que não seja porque cada um tem a sua forma própria de viver o Tempo e o Amor - uns com maior falta de um ou excesso do outro, ou uma incapacidade de entender em momento útil como viver com os dois ou a sua falta - julgo coincidir com a cronista em algumas das considerações que faz sobre o tema. As palavras a partir daqui são dela, os sublinhados são meus, a vontade de viver de determinada forma e não passar ao lado da Felicidade acho que é dos dois. E o meu sim, é para ti, meu Amor.

O Amor e o Tempo por Inês Pedrosa

"Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure"

Vinicius de Moraes

O PROBLEMA do amor é o tempo. O tempo é, aliás, o problema de todos os sentimentos e actos da vida, o inescapável fantasma. O amor é a única possibilidade de transcendência temporal que nos é dada - não porque dure toda a vida mas por ser "infinito" enquanto dura, como escreveu Vinicius de Moraes. Paradoxalmente, neste nosso mundo de dia para dia mais sofisticado e carregado de sabedorias diversas, cada vez há mais gente menos certa de alguma vez ter conhecido o amor. Será o conhecimento assim tão incompatível com a eternidade? Teria razão aquele Deus castigador que condenou ao suplício da vergonha e dos trabalhos forçados as suas criaturas inaugurais, porque se atreveram a sair da plácida pobreza de espírito?

Claro que a narrativa bíblica pode ser interpretada de outra forma: Deus enviou a maçã e a serpente para que as suas criaturas ganhassem o direito ao livre-arbítrio. Nesta interpretação, que me parece muito mais digna da divindade - porque parte do princípio da Liberdade -, Eva e Adão saíram do paraíso oferecido para construírem, eles próprios, o seu paraíso, à sua maneira. Beneficiaram de um crédito vantajoso de que mais nenhum casal no mundo voltou a dispor: eram os únicos seres humanos sobre a Terra. Incomparáveis. Nascidos, sem apelo nem agravo, um para o outro. Hoje, esta pré-determinação parecer-nos-ia o inferno (e é um inferno em que moram ainda muitas raparigas e rapazes, pelo mundo fora), mas, naquele Tempo sem tempo, o caso não se punha assim: Eva não sofria a concorrência de nenhuma Maria cheia de graça e sem celulite, e os músculos de Adão, mirraditos pela falta de ginásio e trabalhos duros, brilhavam na ausência de qualquer espelho, janela ou lavador de janelas. Podiam ficar fartos um do outro sem se aperceberem dessa fartura - não tinham mais ninguém com quem conversar. Não tinham sequer a possibilidade de se interrogarem sobre outras orientações sexuais. Viviam entre flores e frutos, em pleno desenvolvimento sustentável. Quando penso nesse paraíso, deixo de ter medo de cobras. Todas as coisas têm os seus lados positivos e as suas horas de fulgor. E estou em crer que, por muito que tenham gritado um com o outro, depois da saída do paraíso, e até amaldiçoado a sua sorte, Adão e Eva se divertiram mais nessa vida mortal que depois lhes coube do que na eternidade sem tempo de onde saíram.

Pois que é a eternidade sem tempo? Nada. E o tempo sem eternidade? Um inferno. Este período que nos calhou viver assemelha-se demasiado ao inverso do paraíso: em vez de pasmaceira e imortalidade, trabalho contínuo a contra-relógio. Um e outro sistema alienam a liberdade humana. O excesso de consciência da vida (ou seja, da morte) aniquila-nos a própria experiência da vida. Corremos, em vez de vivermos. Precipitamo-nos, em vez de escolhermos. Como aprendemos que o amor não se escolhe, coleccionamos beijos e corpos na ânsia de que essa essência mágica surja, como uma aparição, de dentro de um deles. A ansiedade pelo grande momento faz-se carrasco da possibilidade desse momento (Henry James escreveu sobre este tema um livrinho magistral, "A Fera na Selva").

Estamos cercados pelo apelo da paixão. Lançamo-nos ao sexo em busca da paixão, ou para a esquecer, o que é sinal do mesmo desespero. Não queremos morrer sem ter vivido tudo, e o tudo é cada vez mais visível e impossível de alcançar. Acresce que demoramos mais a morrer; a velhice é tão implacável como sempre foi - com a gravidade suplementar de se ter tornado mais longa.

O infinito é a medida da eternidade humana. A ciência desfibra-nos em hormonas e compostos químicos para explicar que a paixão tem razões fisiológicas que se esgotam ao fim de dois anos de convívio (três, com sorte). Para que queremos saber tanto? Para perder o deslumbramento absoluto da primeira troca de olhares, para perder o contacto com a eternidade que só esses instantes de entrega radical nos dão a ver. Beijamo-nos e pensamos no dia em que deixaremos de nos beijar - sem reparar que o pensamento nos conduz de imediato a esse dia. Não nos entregamos para não sofrer - e que encantamento tem essa vida sem entrega?

"Tu és a minha casa, contigo eu sou livre" - diz o amante a Lady Chatterley, no belíssimo filme de Pascale Ferran, inspirado no clássico de D. H. Lawrence. O sexo levou este par de amantes à paixão, a paixão conduziu-os ao amor, a uma visão mais lúcida e radical da existência, e ao êxtase espiritual da liberdade partilhada. Por isso o filme acaba com um sim: "Chamar-me-ás se te sentires infeliz sem mim, mesmo que daqui a muito tempo?" Sim, diz ele. Falta-nos hoje essa capacidade de nos entregarmos primeiro, sem medo, e de cobrir de flores o corpo amado, como se não houvesse outro corpo nem outra terra no mundo - e de então escolher a eternidade infinita desse momento como destino imóvel, para lá das mil circunstâncias e corpos da vida, num simples e imortal sim.

Vivam o Amor, em Tempo. E fiquem bem, à luz da Lua.

2 comentários:

Rogério Charraz disse...

Trovador, estive com a Lua na sexta-feira. Tinha saudades de estar com ela! Pude constatar o que já sabia, que está outra, com outro brilho no olhar, com outra certeza no andar, com outra tranquilidade no falar. Mas desta vez estava um pouco encoberta pela dúvida, pelo dilema, pela incerteza. Disse-lhe o mesmo que te digo a ti agora, não vale a pena fazer paragens intermédias quando se sabe qual o destino final. Disseram-me uma vez uma frase que nunca esqueci: podes lamentar algo que fizeste, mas nunca queiras lamentar algo que deixaste por fazer! Espero ver-vos em breve, sem sombra de dúvidas...

PS: Obrigado pela partilha dessa crónica notável. Permite-me dois sublinhados meus: "O amor é a única possibilidade de transcendência temporal que nos é dada - não porque dure toda a vida mas por ser "infinito" enquanto dura, como escreveu Vinicius de Moraes." ; "A ansiedade pelo grande momento faz-se carrasco da possibilidade desse momento"

Abraço.

Trovador da Lua disse...

A Lua contou-me do vosso encontro, de quanto ficou feliz por poder falar-te e ouvir-te. A mim, nestes momentos de ausência, o que me faz feliz é sabê-la bem, luminosa. Por isso, obrigado amigo.
E acredito, que de uma forma ou outra, em breve as nuvens se dissiparão de vez. Podemos não conseguir parar o Tempo, mas podemos fazer dele um companheiro de percurso e não um eterno adversário. Sou como tu, também acredito que o pior arrependimento é sobre algo que nos abstivemos de fazer.
Abraço.